Há momentos em que a gente se desencanta um pouco com tudo. É como se repentinamente você começasse a enxergar as coisas de forma mais nítida. As preocupações se direcionam para questões mais abstratas. E, junto com a falta de clareza de pensamentos, surge a sensação de insuficiência perante os problemas que percebemos no mundo em nível macro. Toda essa gama de sensações contraditórias me ocorreu a partir da leitura de alguns noticiários dessa semana que me deixaram bastante pensativo.
Qual é o problema da humanidade?
Aparentemente temos tudo que precisamos para viver bem. Viver em harmonia, em conformidade com a nossa natureza humana, desenvolvendo-nos, desafiando-nos, etc. Entretanto, tenho uma forte impressão de que somos uma consciência coletiva ainda muito primitiva. Não temos discernimento suficiente para lidar com determinadas temáticas. Estamos sempre nos atropelando, falando de temas que não dominamos e nem sabemos, na prática, de que realmente se tratam. Identificamo-nos tanto com as nossas ideias que elas se tornam mais válidas do que o que somos enquanto seres humanos. Todo mundo quer ter razão o tempo todo.
Acho isso tudo muito cansativo e muito violento. Cada um tem a experiência íntima de si mesmo. Se há inúmeros aspectos nossos que não temos a capacidade de entender, muito menos de explicar, como podemos achar que vamos conseguir compreender o que se passa com o outro e explicar a partir da nossa visão? Trata-se de um posicionamento intolerante e bastante pretencioso. No meu entendimento, a realidade social é coletivamente construída. Isso significa que nós podemos mudar essa realidade. E mudá-la não é querer tornar o mundo um lugar perfeito, mas buscar uma forma de ampliar essa nossa consciência coletiva para que possamos nos ajudar em vez de competirmos o tempo todo.

Ao meu ver, a necessidade de cada membro de uma sociedade de ter o mundo ao seu redor condizente com com seus preceitos internos e suas necessidades como tais, é um fator agravante dos conflitos ideais pré existentes... Isso está claramente refletido nos confrontos envolvendo ideais religiosos díspares, ou que envolvem discriminação entre cores ou etnias. O ato de querer sobrepor seus pensamentos e outorgar seus preceitos configura-se como uma falha da natureza humana, embora possa ser corrigida a partir do momento em que se percebe que cada um tem seu mundo, sua história e sua personalidade, as divergências entre as mesmas culminam em uma harmonia generalizada.
ResponderExcluirA gente quer tornar o mundo o lugar que a gente acha ideal, mas temos que levar em consideração que não somos o centro do universo e que existem inúmeras formas de construir a realidade.
ExcluirEnfim, gostei muito do texto. Parabéns.
ResponderExcluirDaniel, você foi muito feliz neste texto. Queria começar, afirmando que as vezes essa falta de clareza de pensamentos é tamanhã que nos questionamos se o problema é de natureza macro ou micro, tão forte é a complexidade criada pelas deturpações do real. (Enfim, essa parte sou eu e os meus devaneios.) Mas achei muito interessante e relacionei isso à fala de um homem (não lembro o nome) que participou do programa Esquenta da rede globo hoje, onde ele falava do problema que a sociedade brasileira tem com a aceitação e discussão do abstrato. Da preferência ao que é concreto e por isso algumas coisas desagradáveis como o preconceito, por exemplo, são acentuadas. A aceitação do abstrato poderia sanar muitos dos nossos atuais problemas. Não trata-se de relativizar tudo, mas aceitar que existem algo intangível, invisível aos olhos de uns, mas bem presente para outros. No programa estavam falando sobre um filme brasileiro " O som ao redor" que mostra a mudança na vida de moradores de um bairro no Recife com a chegada de uma milícia para dar "mais segurança" ao local, fiquei até curioso, vou procurar. Não sei se me fiz entender, mas em meio a minha confusão mental eu te entendi.
ResponderExcluirNunca tinha pensado nisso, Jones. Nessa dificuldade em pensar o abstrato. É bem interessante. Porque como eu tenho facilidade de lidar com conceitos mais abstratos eu acho que é natural do ser humano (mesmo sabendo que nem todo mundo é igual).
ExcluirComplexo, mas muito bem escrito, para bastante reflexão...
ResponderExcluirExcelente texto Daniel, parabéns!!!
ResponderExcluirDefender o que acreditamos é muito importante, mas é bem diferente de impor ou mesmo de não aceitar mudar de opinião.
Algo que entendemos hoje pode não fazer sentido para nós amanhã, a consciência coletiva é formada da diversidade e aceitação das opiniões diversas e de que tudo pode mudar, sempre!