O pai, aparentemente muito tranquilo, parou de andar por um momento, abaixou, tirou a mochila das costas dela. E, para minha grande surpresa, não disse “pare de chorar”, nem tentou acalmá-la com distrações ou promessas. Ele apenas olhou para ela e falou, com serenidade: “Vamos sentar ali naquela escada enquanto você se acalma.”
E lá foram os dois.
Ela, desmanchada em lágrimas.
Ele, presente, paciente… parecia que estava segurando o tempo para ela.
E eu, que estava passando pela rua, precisei fingir que mexia na mochila para poder continuar observando aquilo tudo. Porque aquela cena parecia suspender o tempo. O dele, o dela. E o meu também.
Esse momento me tocou de forma imediata porque bem ali, na rua, no meio da pressa cotidiana, havia um gesto de gentileza tão grande e tão bonito. O pai não quis apressar o tempo da filha, não quis transformar o choro dela em silêncio à força. Ele ofereceu algo de mais valioso que podemos receber de alguém: espaço para sentir.
Depois disso, fiquei pensando que talvez seja esse o papel do adulto na vida de uma criança: não de impedir a dor, dar explicações ou sentido para ela, mas, sobretudo, ajudar a sentir… ajudar a entender que sentir é parte do caminho, é parte do estar vivo e se afetar pelo mundo à nossa volta.
Sei que a imagem daquela escadaria ficou na minha memória como uma representação disso tudo. Um lugar para respirar no meio do percurso. Um lugar para assentar as emoções e dar espaço para que elas possam acontecer.
E talvez quando crescemos, na pressa, a gente perca isso: a capacidade de perceber que não é preciso atravessar tudo correndo. Que há degraus onde podemos parar, descansar o corpo, esperar que as emoções se acomodem. Deixar que o coração se aquiete e encontre o seu próprio ritmo.
Esse pai me deixou uma grande lição. Ali, junto com aquela criança, eu também aprendi que sentir não atrasa a vida, ao contrário, é o que mais nos prepara para seguir, inteiros. Porque é no sentir que a vida se organiza em nós.

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