sábado, 20 de outubro de 2012

Unidimensionalidade

O modelo vermelho, René Magritte, 1953, óleo sobre a tela, 55,9 x 45,8 cm.
Vemos a metamorfose de um pé, que se transforma em sapato (ou vice-versa?).
Seria a coisificação do homem?
Somos seres incrivelmente inteligentes e criativos. Distinguimo-nos dos animais por nossa capacidade de comunicação e de abstração que nos possibilita interagir com o passado, com o presente e com o futuro. Somos capazes de criar, perceber e interagir com o mundo dos símbolos. Observemos como nossa linguagem simbólica e abstrata nos possibilita a nos distanciarmos do mundo, retornarmos a ele e também transformá-lo.

Além de transformarmos o mundo, estamos em constante construção e reconstrução de nós mesmos. Nossa capacidade cognitiva, nossas habilidades humanas e nosso contexto social demandam uma renovação constante do que somos e da forma como nos entendemos, como pensamos e como interagimos com o outro e com o mundo à nossa volta.

Nesse processo de autoprodução constante de nós mesmos, um aspecto do comportamento humano me chamou atenção: Porque nós temos essa forte tendência a perceber o outro apenas por uma de suas facetas?

É comum que não tenhamos a oportunidade de dialogar abertamente com todas as pessoas que compõem o nosso ciclo social. Algumas delas convivem conosco há bastante tempo, durante várias horas por dia e, ainda assim, acabam fixando uma imagem sobre nós que geralmente não corresponde ao que somos em nossa plenitude.

Não creio que, em se tratando de seres humanos, sejamos capazes de reduzi-los a apenas uma característica isolada, seja ela boa ou ruim. O grande problema com os estereótipos não é que eles sejam fundamentalmente falsos, mas que eles são, por natureza, incompletos. Você pega uma característica isolada do indivíduo e começa a percebê-lo e interpretá-lo apenas através desse aspecto.

Existe coisa mais violenta do que reduzir uma pessoa a uma única coisa? Não somos objetos, não podemos ser definidos de forma tão rasa. Somos seres plurais, complexos e multifacetados. Dificilmente um rótulo vai ser capaz de representar o universo que existe dentro de cada um de nós.

Em síntese, é importante que consideremos a forma como percebemos o outro assim como a forma como nos deixamos perceber. Quando observamos e catalogamos as pessoas de forma unidimensional, reduzimo-las, diferenciamo-las e as impossibilitamos de ser o que são por sua essência: um conjunto intricado de ideias, percepções, emoções e possibilidades que não se esgotam, misturam-se, complementam-se e sempre podem nos surpreender.

8 comentários:

  1. Adorei! Como diria Fernando Pessoa: Não amamos ao outro, mas uma imagem do outro que criamos. Em síntese, é a nós mesmos que amamos...
    Somos multidimensionais e em constante metamorfose... impossível captar alguém (ou mesmo a si próprio) por completo.
    É muito triste e injusto ser julgado e definido por um momento, uma ação, uma situação... é, acima de tudo, reducionista e simplório demais fazê-lo, pois todo ser humano, por melhor ou pior que seja, é um universo.

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    1. "Em síntese, é a nós mesmos que amamos..."
      E é a nós mesmos que criticamos também. Obrigado, Gorete!

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  2. Interessante!
    Esse texto tem uma ligação direta com o "incomodo".
    Essa tendência de analisar o outro o reduzindo a uma característica, coisa, ação etc., geralmente é imantada pelo ego, e ele sempre atrairá aquilo que por algum motivo, que só nós conhecemos, nos incomoda.
    Certa vez, aprendi que o incomodo é um instrumento de transcendência, e ele realmente é. Se algo em uma pessoa é alvo de meu destaque, o tem motivo de ser, e não está no outro, mas sim em mim, por dentro de mim.
    Nesse caso, só o leitor, observador, expectador, e de todas as formas apontador, poderá superar e abstrair. Só assim, dar a chance do outro mostrar-se em sua plenitude. Muito bom Daniel.
    >>Jones

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    1. Jones, não conheço o texto "incomodo", mas é uma tendência que eu sempre percebo nas pessoas essa questão da rotulação e do reducionismo humano.

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  3. Lindo texto!!!

    Adoro a forma que vc se expressa,de dentro pra forma.Essa essência única que tem de escreve, e expor que vc senti de forma peculiar. Isso me encanta e inspira.

    Eliane Fausto.

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